4 de abril de 2022

WRTC & PY2NY, a Story

POR - ENG - ITA


Time SA4 está pronto para a Olimpíada do Radioamadorismo.

SA4 Team is ready for WRTC 2023.

Il Duo SA4 c’è pronta per la WRTC 2023 a Bologna.




[ Portuguese ]


O radioamadorismo é hobby que une gerações e povos, sem distinção de qualquer natureza, promovendo o relacionamento entre as pessoas pelas ondas do rádio. A atividade é regulamentada em todos os países do mundo e os praticantes fazem contato entre si usando telegrafia, voz, TV, sinais digitais, com equipamentos e antenas comerciais ou feitos por eles mesmos.

Tomei gosto por isso após ver dois tios envolvidos (Paulo & David) e observar radioamadores em acampamentos escoteiros, no final da década de 1970, início dos 80. Com quinze anos de idade (1981) obtive minha primeira licença (PY2NYS, depois PY2NY) e a partir de então, com suporte da família, apaixonei-me pelo radioamadorismo.

Um dos fatores determinantes para meu ingresso foi o Jamboree do Ar, outrora competição (no Brasil) entre Grupos Escoteiros que se encontravam ‘virtualmente’ usando as estações radioamadorísticas como pontes na comunicação. Estava ali, é claro, a semente do interesse pela radiocompetição.

E afinal, o que é a radiocompetição ou contest no jargão específico?

São diversas as entidades que, de alguma forma, congregam os praticantes do radioesporte. Parte delas promove anualmente competição aberta a todos os radioamadores do mundo com regras próprias; num determinado espaço de tempo (geralmente fins de semana) é preciso fazer o maior número possível de contatos com a maior quantidade possível de países diferentes.

A relação final desses contatos resulta numa pontuação específica, de acordo com o regulamento do contest. Após o envio dos relatórios aos organizadores, os dados de milhares de participantes são cruzados, checados e corrigidos, resultando na classificação de cada competidor dentro do país, continente e no Mundo.

Essa é minha área de atuação principal no radioamadorismo desde o início. Além de afinar os ouvidos, treinar a memória e habilidades de transmissão (dados, voz, telegrafia), além de gastar um pouco de adrenalina nos momentos em que um número grande de pessoas chama simultaneamente, vamos nos habituando com a presença constante de outros colegas e isso nos une em uma comunidade muito específica, cujo liame é justamente o interesse pelos “contests”.

E assim, inesperadamente, quando contava quase 20 de anos de radioamadorismo, fui surpreendido em 2000 pelo convite de PP5JR Sérgio para participar de uma espécie de olimpíada mundial de radioamadorismo. Foi meu primeiro contato com o WRTC - World Radio Team Championship, que foi realizado então na Eslovênia, em julho daquele ano.


Afinal, e esse tal WRTC (World Radio Team Championship)? 

A cada quatro anos em média ocorre a reunião (WRTC - Campeonato Mundial de Times Radioamadorísticos) de 50 a 70 duplas (teams) de radioamadores previamente habilitados em seletivas nos anos que antecedem o evento. Nas ocasiões em que representei o Brasil (2000 & 2006), os regulamentos previam determinado número de duplas por continente, e dentro dos continentes, por país. Claro, nem todos os países são representados porque as tais seletivas consideram pesos e contrapesos da presença na atividade, e nisso, o Brasil tem certa tradição.

Acostumei-me a pensar na nacionalidade como fator determinante na montagem das duplas do WRTC, é estranho pensar em duplas binacionais, mas já há algum tempo o primeiro lugar (Team Leader) em suas seletivas locais, escolhe um colega (Team Mate) dentre os demais, sem se obrigar a país ou continente.


Para onde vai o WRTC 2022? 

O WRTC (World Radio Team Championship) em 2022 estava agendado para Bologna, na Itália, mas a COVID atrapalhou todo o programa e a competição (mantido o local) foi deslocada no tempo para julho de 2023. Para a América do Sul destinaram quatro “Team Leaders”; deles, um (SA4) para Brasil S/SE (minha área), e outro (SA2) para Brasil  N/NE, mas compartilhado com Guiana, Suriname, Guiana Francesa e Trinidad.


E eu, PY2NY? Nas seletivas combinei 75% sorte com 25% esforço. Para entender isso é importante ler o artigo WRTC 2022 First Pre-Qualifiers na revista “National Contest Journal” - Maio/2021, onde descrevi minha trajetória para CE3CT. Embora o texto esteja em inglês, recomendo:

https://drive.google.com/file/d/1URhLLlqk9hdRyE6iVp5r1hL2i-lHoY6e/view?usp=sharing

Foi, de fato, muita sorte ser o “Team Leader” para a SA4. Como na SA2 se classificou PT7ZT, são dois representantes brasileiros com liberdade de escolha do “Team Mate” (parceiro), inclusive entre não-nacionais. PT7ZT, por sinal, já o fez e terá como companheiro Soni PY1NX.

De qualquer maneira, é hora para escolher o “Team Mate”, ou o colega de time. De imediato, procurei olhar para os demais radioamadores na área SA4 e seus pontos de qualificação:


1 - PY2NY, 10620 : Eligible Team Leader

2 - PP5JR, 8772 : Eligible Team Mate*

3 - PY2ZEA/OH2MM, 7667 : Eligible Team Mate**

4 - PY4BZ, 4785 : Eligible Team Mate

5 - PP5BZ, 4664 : Eligible Team Mate


Com alegria e expectativa, observando a seqüência de ‘scores’, convidei Sérgio PP5JR (8772)* para a missão de 2023, quase que ‘devolvendo’ o convite que ele me fez em 2000, quando representamos o Brasil no WRTC da Eslovênia. Infelizmente, Sérgio declinou do convite por motivos profissionais e gerenciamento de tempo.

A seguir, procurei OH2MM Ville PY2ZEA (7667)**, finlandês brasileiro campeão mundial do CQWW CW diversas vezes, que agradeceu a gentileza e se colocou na condição de “backup”, dizendo-se já muito velho para ser competidor.

A partir daí, precisei readequar a estratégia e equilibrar “nacionalidade” com “qualificação”, buscando pontuações acima de 7.000 e navegando entre outros países e continentes. Ato contínuo, celebrando recente regularização de minha nacionalidade portuguesa, pensei em convidar algum radioamador de Portugal que fosse elegível.

E assim foi com Filipe CT1ILT (8749). Preenchia todos os requisitos, exímio operador em fonia (SSB) e telegrafia (CW), com muitos recordes acumulados e muito melhor operador do que eu. Todavia, já estava comprometido com um colega espanhol para formar um time representativo da “Península Ibérica” e bem por isso, também declinou do convite.

A idéia de formar o time binacional (POR/BRA) permaneceu inculcada, com possibilidade de mandar costurar uma bandeira com metade Brasil, metade Portugal. E foi então que lembrei do Alex PY2SEX, um brasileiro que mora na Europa há muitos anos e tem o indicativo de radioamador holandês como PC3T.

Fiquei impressionado com os números de qualificação de Alex PC3T (9522), ainda mais por saber que sua estação é razoavelmente simples e todas as pontuações demandaram domínio de fonia e telegrafia. Parte de seu desempenho, superando obstáculos e contando também com um pouquinho de sorte, fez com que eu me lembrasse do meu próprio. Ele participou do WRTC 2018 na Alemanha e este pode ser seu segundo WRTC.

Enviei então um convite ao Alex PC3T para tratarmos do assunto sem compromisso e seu entusiasmo foi contagiante. Entrevistamo-nos por videoconferência, trocamos algumas idéias, pensamos em objetivos e chegamos a conclusão de que temos condições de fazer companhia e dar suporte um ao outro durante o WRTC 2023, considerando-nos razoáveis ao mesmo tempo em telegrafia e fonia, além de aptos ao uso do N1MM e DXLog e dispostos a gastar algum ‘l’argent’ (pero no mucho) para melhor equipar a dupla PY2NY (10620) e PC3T (9522).

É preciso dizer ainda, por feliz coincidência, que Alex PC3T usufrui da mesma condição de dupla nacionalidade e também é luso-brasileiro, de tal forma que seremos, deduz-se, a primeira dupla na história do WRTC que representa ao mesmo tempo, com seus dois integrantes de dupla nacionalidade, dois países diferentes: Brasil e Portugal.

E tem mais, até mesmo a composição dos prefixos legais de radioamador, há proximidade: PA, PC, PD para Holanda e PP, PT, PY para Brasil.

Assim é que, concluída esta longa exposição, tem-se a resposta final (abril de 2022) sobre a composição do Time SA4, do continente Sul Americano:


Team Leader - extra hiper super apenas sortudo

PY2NY Vitor L Aidar Santos

Total WRTC qualification points: 10620

Area rank (South America IV): 1 in SA4

Country rank: 1 in PY - Brazil


Team Mate - super esforçado

PC3T Alexandre "Alex" Correia

Total WRTC qualification points: 9522

Area rank (Europe II): 3 in EU2

Country rank: 1 in PA - Netherlands/Holanda


E as metas para o WRTC 2022?

Seja como dupla 100% brasileira, seja como 100% portuguesa, a meta geral é ficar entre os 30 primeiros classificados em Bologna, reconhecendo a dificuldade da empreitada. Em golpe de sorte (nisso somos craques) talvez possamos repetir Brasil 2006 (19º - PY2NY/PY2EMC) e ficar entre os 20 primeiros. Qualquer coisa melhor que 39º representará a melhor colocação da história para uma dupla 100% portuguesa - já pensou?

No mais, e acima de tudo, o importante é competir de maneira saudável e aproveitar o momento para confraternizar com radioamadores do mundo todo, entre 8 e 9 de julho de 2023.

Esperamos que os radioamadores brasileiros, portugueses e holandeses contribuam com seu carinho e torcida, pelo sucesso desta atípica empreitada durante a Copa do Mundo do radioamadorismo.

Creio que teremos mesmo de mandar fazer a bandeira binacional. A gente se vê em Bologna, em julho de 2023!


[ English ]


Amateur radio is a hobby that unites generations and peoples, without distinction of any kind, promoting relationship between people using the radio airwaves. The activity is regulated in all countries of the world and amateur radio operators make contact with each other using telegraphy, voice, TV, digital signals, with commercial or self-made equipment and antennas.

I began to like it after seeing two uncles involved (Paulo & David) and observing radio amateurs in boy scouts camps, in the late 1970s, early 80s. At the age of fifteen (1981) I got my first license (PY2NYS, then PY2NY) and from then on, with the support of my family, I fell in love with ham radio (another way to call amateur radio).

One of the determining factors to be ham radio op was JOTA - Jamboree on the Air, once a competition (in Brazil) between Boy Scout Groups that met 'virtually' using amateur radio stations as bridges in communication. There was, of course, the seed of my interest in radio competition.

And after all, what is radio competition or contest in specific jargon?

There are several entities that, in some way, bring together practitioners of radiosport. Part of them annually promotes competition open to all radio amateurs in the world with its own rules; in a given period of time (usually weekends) it’s necessary to make as many contacts as possible with as many different countries as possible.

The final list of these contacts results in a specific score, according to the contest rules. After sending the reports to the organizers, the data of thousands of participants is cross-checked, checked and corrected, resulting in a ranking of each competitor within the country, continent and worldwide.

This has been my main area of ​​expertise in ham radio since the beginning. In addition to tuning your ears, training your memory and transmission skills (data, voice, telegraphy), or expending a little adrenaline when a large number of people call simultaneously, we get used to the constant presence of other colleagues and this unites us in a very specific community, whose bond is precisely the interest in “contests”.

And so, unexpectedly, after almost 20 years of amateur radio, I was surprised in 2000 by the invitation of PP5JR Sérgio to participate in a kind of world amateur radio olympiad. It was my first view with the WRTC - World Radio Team Championship, which was then held in Slovenia, in July of that year.


What about WRTC (World Radio Team Championship)?

Every four years, on average, there is a meeting (WRTC - World Radio Team Championship) of 50 to 70 pairs (teams) of radio amateurs previously qualified in selectives during the years before the event. When I represented Brazil (2000 & 2006), the regulations allowed a certain number of pairs per continent, and within the continents, per country. Of course, not all countries are represented because such selectivez consider weights and balances of presence in the radiosport activity, and under this situation, Brazil has a certain tradition.

I got used to thinking about nationality as a determining factor in the assembly of the WRTC pairs, it's strange to think of binational pairs, but for some time now the first place (Team Leader) in their local selective, chooses a colleague (Team Mate) from among all others, without limits by country or continent.


So, what will be the thing to WRTC 2022?

The WRTC (World Radio Team Championship) in 2022 was scheduled for Bologna, Italy, but COVID disrupted the entire program and the competition (kept the place) was time-shifted to July 2023. For South America, were allocated four "Team Leaders”; of them, one (SA4) for Brazil S/SE (my area), and another (SA2) for Brazil N/NE, but shared with Guyana, Suriname, French Guiana and Trinidad.

What about me, PY2NY? I can think to myself that I combined 75% luck with 25% effort. To understand this, it is important to read the article “WRTC 2022 First Pre-Qualifiers” in the “National Contest Journal” - May/2021, where I described my trajectory for CE3CT. Although the text is in English, I recommend:

https://drive.google.com/file/d/1URhLLlqk9hdRyE6iVp5r1hL2i-lHoY6e/view?usp=sharing

It was indeed very lucky to be the “Team Leader” for SA4. As Carlos PT7ZT was classified in SA2, there are two Brazilian representatives with freedom to choose the “Team Mate” (partner), including among non-nationals. PT7ZT, by the way, has already done so and will have Soni PY1NX as a companion.

Either way, it's my time to choose the "Team Mate". Immediately, I tried to look at the other radio amateurs in the SA4 area and their qualification points:


1 - PY2NY, 10620 : Eligible Team Leader

2 - PP5JR, 8772 : Eligible Team Mate*

3 - PY2ZEA/OH2MM, 7667 : Eligible Team Mate**

4 - PY4BZ, 4785 : Eligible Team Mate

5 - PP5BZ, 4664 : Eligible Team Mate


Happy and with some expectation, observing the sequence of 'scores', I invited Sérgio PP5JR (8772)* to the 2023 mission, almost 'returning' the invitation he made me in 2000, when we represented Brazil at the Slovenian WRTC. Unfortunately, Sérgio declined the invitation for professional reasons and time management.

Next, I looked for OH2MM Ville PY2ZEA (7667)**, Finnish Brazilian guy & CQWW CW world champion several times, who told me about kindness and his gratitude, putting himself in the “backup” condition, calling himself too old to be a competitor (I disagree).

After all of that, I needed to readjust the strategy and balance “nationality” with “qualification”, looking for scores above 7,000 and navigating between other countries and continents. Then, celebrating the recent regularization of my Portuguese nationality, I thought about inviting an eligible ham radio op from Portugal.

And so, the guy could be Filipe CT1ILT (8749). He fulfilled all the requirements, an excellent operator phone and telegraphy, with many accumulated records and much better operator than me. However, he was already committed with a Spanish colleague to form a team representing the “Iberian Peninsula” and for that reason, he also declined the invitation.

The idea of ​​forming binational team (POR/BRA) remained instilled, with possibility of a sewn flag with half Brazil, half Portugal. And that was the time I remembered Alex PY2SEX, a Brazilian guy living in Europe for many years and with a Dutch ham radio license as PC3T. He did WRTC 2018 in Germany and this one can be your second WRTC.

I was impressed with Alex PC3T's qualification numbers (9522), even more so knowing that his station is reasonably simple and all scores required mastery in phone (SSB) & telegraphy (CW). Part of his performance, overcoming obstacles and also relying on a little bit of luck, reminded me of my own effort.

Then, I sent invitation to Alex PC3T to talk about the matter without compromise and his enthusiasm, from the begin, was contagious. We interviewed each other by videoconference, exchanging some ideas, thought about goals and came to the conclusion that we are able to keep each other company, and support each other during WRTC 2023, considering ourselves a reasonable Team at the same time in telegraphy & phone, in addition to being able using N1MM and DXLog and willing to spend some 'l'argent' (pero no mucho) to better equip the duo PY2NY (10620) and PC3T (9522).

It is also necessary to say, by happy coincidence, that Alex PC3T enjoys the same status of dual nationality and he is also Portuguese-Brazilian, in such a way that we will be, simple deduction, the first “Team” in WRTC history that represents at the same time, with its two members of dual nationality, two different countries: Brazil and Portugal.

And there's more, even the composition of the legal ham radio prefixes (licenses), show a proximity: PA, PC, PD for Holland and PP, PT, PY for Brazil.

So, after this long exposition, we have the final answer (April 2022) about the composition of Team SA4, from the South American continent:


Team Leader - hyper super extra lucky guy

PY2NY Vitor L Aidar Santos

Total WRTC qualification points: 10620

Area rank (South America IV): 1 in SA4

Country rank: 1 in PY - Brazil


Team Mate - hardworking guy

PC3T Alexandre "Alex" Correia

Total WRTC qualification points: 9522

Area rank (Europe II): 3 in EU2

Country rank: 1 in PA - Netherlands


And what about goals for WRTC 2022?

Whether as a 100% Brazilian Team or as a 100% Portuguese Team, the general goal is to be among the “Top 30” in Bologna, recognizing the difficulty of the challenge. In a lucky strike (we are great on this) we may be able to repeat Brazil 2006 (19th - PY2NY/PY2EMC) and be among the “Top 20”. Anything better than 39th will represent the best place in history for a 100% Portuguese WRTC Team - what about that?

In addition, and above all, the most important thing is to compete in a good way and take advantage of the moment to fraternize with ham radio ops from around the world, between July 8th and 9th, 2023.

We hope that Brazilian, Portuguese and Dutch radio amateurs can contribute with their affection and support for the success of this atypical undertaking during the Amateur Radio World Cup, or WRTC.

I believe that we will really need to have a binational flag. See you in Bologna, July 2023!




[ Italian ]


Radioamatore c’è un hobby che unisce generazioni e popoli, senza distinzioni, favorendo le relazioni tra le persone via etere, via rádio. L'attività è regolamentata in tutti paesi del mondo e gli operatori entrano in contatto tra loro utilizzando la telegrafia (CW), la voce (SSB), la TV, i segnali digitali, con apparecchiature e antenne commerciali o autocostruite.

L'ho preso in simpatia dopo aver visto coinvolti due zii (Paulo e David) e aver osservato i radioamatori nei campi scout, alla fine degli anni '70, primi anni '80. All'età di quindici anni (1981) ho ottenuto la mia prima licenza (PY2NYS, poi PY2NY) e da allora, con il sostegno della mia famiglia, mi sono innamorato della attivitá radioamatori.

Uno dei fattori determinanti per la mia partecipazione è stato il Jamboree on The Air, una volta fa c’era competizione (in Brasile) tra Gruppi Scout che si incontravano 'virtualmente' utilizzando stazioni radioamatoriali come ponti di comunicazione. C'era, ovviamente, il seme dell mio interesse per la competizione radiofonica.

E dopotutto, cos'è la competizione radiofonica o il ‘contest’ in gergo specifico?

Ci sono diverse entità che, in qualche modo, riuniscono i praticanti di radiosport. Una parte di essi promuove annualmente una competizione aperta a tutti i radioamatori del mondo con proprie regole; in un determinato periodo di tempo (solitamente i fine settimana) è necessario stabilire quanti più contatti possibili con quanti più paesi possibili.

L'elenco finale di questi contatti si traduce in un punteggio specifico, secondo le regole del “contest”. Dopo aver inviato le relazioni agli organizzatori, i dati di migliaia di partecipanti vengono sottoposti a controlli incrociati, controllati e corretti, determinando la classifica di ciascun concorrente all'interno del paese, del continente e del mondo.

Questa è stata la mia principale area di competenza nelle radioamatori sin dall'inizio. Oltre a sintonizzare le orecchie, allenare la memoria e le capacità di trasmissione (dati, voce, telegrafia), oltre a spendere un po' di adrenalina quando un gran numero di persone chiama a lo stesso tempo, ci abituiamo alla presenza costante di altri colleghi e questo unisce noi in una comunità molto specifica, il cui vincolo è proprio l'interesse per i “contest”.

E così, inaspettatamente, quando avevo quasi 20 anni di radioamatore, sono stato sorpreso nel 2000 dall'invito di PP5JR Sérgio a partecipare a una sorta di olimpiade mondiale di radioamatori. Fu il mio primo contatto con il WRTC - World Radio Team Championship, che si tenne allora in Slovenia, nel luglio di quell'anno.

Dopotutto, che dire di questo WRTC (World Radio Team Championship)?

Ogni quattro anni, in media, si tiene un raduno (WRTC - Campionato Mondiale di Teams Radioamatori) da 50 a 70 coppie (teams) di radioamatori precedentemente qualificati in selettivo negli anni precedenti l'evento. Nelle occasioni in cui ho rappresentato il Brasile (2000 e 2006), il regolamento prevedeva un certo numero di coppie per continente, e all'interno dei continenti, per paese. Certo, non tutti i paesi sono rappresentati perché quelle selettivi considerano pesi ed equilibri di presenza nell'attività di concorso, e in questo quesito il Brasile ha una certa tradizione.

Mi sono abituato a pensare alla nazionalità come fattore determinante nell'assemblaggio delle “Team” WRTC, è strano pensare a “Squadre” binazionali, ma da qualche tempo fa, il primo posto (Team Leader) nelle selettive locali puó scegliere un collega (Team Mate) tra gli altri, senza essere vincolati da paese o continente.


Dove sta andando il WRTC 2022?

Il WRTC (World Radio Team Championship) nel 2022 era previsto a Bologna, in Italia, ma il COVID ha interrotto l'intero programma e la competizione (mantenuta la sede) è stata spostata a luglio 2023. Per Sud America, quattro posti ci sono stati assegnati per "Team Leader"; di questi, uno (SA4) per il Brasile S/SE (mia area) e un altro (SA2) per il Brasile N/NE, ma condiviso con Guyana, Suriname, Guyana francese e Trinidad.

E io, PY2NY? Nelle prove selletive ho combinato 75% di fortuna con 25% di sforzo. Per capirlo, è importante leggere l'articolo WRTC 2022 First Pre-Qualifiers nel “National Contest Journal” - maggio/2021, dove ho descritto la mia traiettoria per CE3CT. Sebbene il testo sia in inglese, consiglio:

https://drive.google.com/file/d/1URhLLlqk9hdRyE6iVp5r1hL2i-lHoY6e/view?usp=sharing

È stato davvero molto fortunato a me essere il "Team Leader" per SA4. Poiché PT7ZT è stato classificato in SA2, ci sono due rappresentanti brasiliani con libertà di scegliere il “compagno di squadra” (Team Mate), anche tra non nazionali, non brasiliani. PT7ZT, tra l'altro, lo ha già fatto e avrà Soni PY1NX (Rio de Janeiro - RJ) come compagno.

Tuttavia, c’è il momento di scegliere il mio "compagno di squadra", o Team Mate. Immediatamente ho provato a guardare gli altri radioamatori della zona SA4 e i loro punti di qualificazione:

1 - PY2NY, 10620 : Team Leader ammissibile

2 - PP5JR, 8772 : Team Mate ammissibile*

3 - PY2ZEA/OH2MM, 7667 : Team Compagno ammissibile**

4 - PY4BZ, 4785 : Compagno di Squadra ammissibile

5 - PP5BZ, 4664 : Compagno di Squadra ammissibile


Con gioia e aspettativa, osservando la sequenza dei 'spartiti', ho invitato Sérgio PP5JR (8772)* alla missione del 2023, quasi 'restituendo' l'invito che mi fece nel 2000, quando rappresentavamo il Brasile al WRTC sloveno. Sfortunatamente, Sérgio ha rifiutato l'invito per motivi professionali e di gestione del tempo.

Successivamente, ho cercato OH2MM Ville PY2ZEA (7667)**, tante volte campione del mondo al CQWW CW, che ha ringraziato per la gentilezza dal invito e si è messo nella condizione di “backup”, dicendo che c’è troppo vecchio per essere un concorrente.

Da lì, ho dovuto riadattare la strategia e bilanciare "nazionalità" con "qualifica", cercando punteggi superiori a 7.000 e navigando tra altri paesi e continenti. Subito dopo, celebrando la recente regolarizzazione della mia nazionalità portoghese, ho pensato di invitare un radioamatore ammissibile dal Portogallo.

E così è stato con Filipe CT1ILT (8749). Ha soddisfatto tutti i requisiti, un eccellente operatore Fone (SSB) e Telegrafia (CW) con molti record accumulati e un operatore molto migliore di me. Tuttavia, era già impegnato con un collega spagnolo a formare una squadra in rappresentanza della "Penisola iberica" ​​e per questo ha anche rifiutato l'invito.

Rimase instillata l'idea di formare la squadra binazionale (POR/BRA), con la possibilità di avere una bandiera cucita con metà Brasile, metà Portogallo. Ed è allora che mi sono ricordato di Alex PY2SEX, un brasiliano che ha vissuto in Europa per molti anni e ha il nominativo radioamatore in Olanda, dove abita, come PC3T.

Sono rimasto colpito dai punteggi di qualificazione di Alex PC3T (9522), ancora di più sapendo che la sua stazione è ragionevolmente semplice e tutti i punteggi richiedevano padronanza al Fone & telegrafia. Parte della sua performance, superando ostacoli e affidandosi anche a un po' di fortuna, mi ha ricordato la mia. Ha partecipato al WRTC 2018 in Germania e questo puó essere il suo secondo WRTC.

Ho quindi inviato un invito ad Alex PC3T per discutere la questione senza compromessi e il suo entusiasmo è stato contagioso dal’inizio. Ci siamo intervistati in videoconferenza, ci siamo scambiati alcune idee, abbiamo riflettuto sugli obiettivi e siamo insieme alla conclusione che siamo in grado di farci compagnia e supportarci a vicenda durante il WRTC 2023, considerandoci ragionevoli allo stesso tempo in CW & SSB, inoltre di poter utilizzare N1MM e DXLog e di voler spendere un po' 'l'argent' (pero no mucho) per equipaggiare al meglio il duo PY2NY (10620) e PC3T (9522).

C'è anche da dire, per fortunata coincidenza, che Alex PC3T gode dello stesso status di doppia nazionalità che io ed è anche portoghese-brasiliano, tanto che saremo, si deduce, il primo duo nella storia del WRTC che rappresenta allo stesso tempo, con i suoi due membri di doppia nazionalità, due paesi diversi: Brasile e Portogallo.

E c'è di più, anche la composizione dei prefissi legali dei radioamatori, c'è la vicinanza: PA, PC, PD per l'Olanda e PP, PT, PY per il Brasile.

Quindi, dopo questa lunga esposizione, abbiamo la risposta finale (aprile 2022) sulla composizione del Team SA4, dal continente sudamericano:


Team Leader - extra super hiper ed semplicemente fortunato

PY2NY Vitor L Aidar Santos

Totale punti di qualificazione WRTC: 10620

Grado di area (Sud America IV): 1 in SA4

Classifica Paese: 1 in PY - Brasile


Compagno di squadra - super laborioso

PC3T Alexandre "Alex" Correia

Totale punti di qualificazione WRTC: 9522

Grado di area (Europa II): 3 in EU2

Classifica Paese: 1 in PA - Paesi Bassi/Olanda


E gli obiettivi per WRTC 2022?

Che sia un duo 100% brasiliano o 100% portoghese, l'obiettivo generale è quello di essere tra i “Top 30”  a Bologna, riconoscendo la difficoltà dell'impresa. Con un colpo di fortuna (siamo buoni in questo) potremmo essere in grado di ripetere Brasile 2006 (19° - PY2NY/PY2EMC) ed essere tra i “Primi 20”. Qualcosa di meglio del 39° rappresenterà il miglior piazzamento nella storia per un duo portoghese al 100% - ci hai mai pensato?

Inoltre, e soprattutto, l'importante è competere in modo sano e sfruttare il momento per fraternizzare con i radioamatori di tutto il mondo, tra 8 ed 9 luglio 2023.

Ci auguriamo che i radioamatori brasiliani, portoghesi e olandesi contribuiscano con il loro affetto e sostegno al successo di questa atipica impresa durante i Mondiali di Radioamatori - WRTC.

Credo che dovremo anche cucire la bandiera binazionale. Ci vediamo a Bologna a luglio 2023!

 

27 de fevereiro de 2022

PY2EYE SK

Faleceu na madrugada de hoje, 27.2.2022, outra referência pessoal no radioamadorismo e, por tabela, outro mestre na construção de meu caráter e na formação da minha personalidade: - Nilson PY2EYE.

Usando o linguajar da moçada, Nilson era um “radioamador raiz”. Logo após me tornar PY2NYS, em outubro de 1981 (PY2NY em 1990), as visitas a sua casa se tornaram regulares, em decorrência inicialmente do Jamboree do Ar, atividade que congrega radioamadores e escoteiros ao redor do mundo.

Sua família era e é excepcional, com a esposa Sueli como representação máxima do que é ser cara-metade e consorte, e os três filhos homens com a mesma retidão de caráter do pai.

Tinha lá meus 15 anos de idade e PY2EYE fez o possível e impossível para que eu também me tornasse um “radioamador raiz”. 

Imaginando que amigas e amigos não ligados a esse universo possam se entregar a este texto dedicado a um sujeito excepcional, podemos definir “radioamador raiz” como aquele que domina todo o sistema produtivo, na linguagem do “economês”:- reúne as peças, solda diodos e transistores, monta o próprio equipamento, constrói a antena e afinal, faz os contatos com os demais radioamadores.

Há poucos assim, e talvez menos ainda que se dispusessem ao convencimento com tanta educação, paciência, cavalheirismo e polidez, como Nilson procurou fazer. Infelizmente, não segui o caminho, o radioamadorísmo oferece um leque de opções enorme e me acomodei na condição de “apertador de botões” na área de interesse da radiocompetição em telegrafia, voz e radioteletipo.

Mesmo desiludindo o mestre, ainda colhi seus elogios aqui e acolá, nesta convivência de mais de quatro décadas (!), mostrando todas as qualidades desse ser humano “fora-da-curva”.

Sua despedida vem, por coincidência, após meus tios nonagenários David ex-PY2SIZ e Paulo ex-PU2NCW celebrarem seus aniversários e, dessa forma, mostra que somos passageiros efêmeros nesta bola cheia de terra, água, ar, bichos, plantas e pessoas, sendo nossa obrigação (no bom sentido) aproveitar cada minuto da melhor maneira possível e de preferência, com gente do naipe de PY2EYE, sua esposa e seus filhos.

Vou sentir falta de um dos melhores radioamadores que o Brasil já teve, mas ao mesmo tempo, compensarei com seus filhos, todos eles também radioamadores, demonstrando que, de quando em vez, a regra se locupleta em si própria - tal pai, tal filho.

Ana e eu estamos em luto, expressando aqui nossas condolências a amigos e parentes, guardando na “retina d’alma” a imagem do Nilson de sempre, brincalhão a dar beliscões ou sério a ensinar algo no hobby que nos uniu a milhares ao redor do mundo, e recordando a maneira tão peculiar de seu chamado DX (destinado aos estrangeiros) em 18112 kHz: Papa Yankiiii Two Echol Yankê Echolll….

Godspeed, PY2EYE. Beijos de PY2NY & PU2VYT.


 

14 de janeiro de 2022

OSHA e a Suprema Corte

Já circula a tradução de um trecho do Acórdão da Suprema Corte americana bloqueando a obrigação de vacinação em empresas, em face das determinações da OSHA e em revés para Biden.

Ainda envolvido com as coisas do Direito (faltam-me cinco anos para aposentar), gostaria de recomendar aos amigos de maneira geral que acessem o dispositivo na íntegra, como abaixo transcrito, e sintam as ligeiras e sutis diferenças.

E se a curiosidade aumentar, anexo o 'link' para a leitura integral do interessante julgado.

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[595 U. S. _ (2022) 7 GORSUCH, J., concurring]

"The question before us is not how to respond to the pandemic, but who holds the power to do so. The answer is clear: Under the law as it stands today, that power rests with the States and Congress, not OSHA. In saying this much, we do not impugn the intentions behind the agency’s mandate. Instead, we only discharge our duty to enforce the law’s demands when it comes to the question who may govern the lives of 84 million Americans.

Respecting those demands may be trying in times of stress. But if this Court were to abide them only in more tranquil conditions, declarations of emergencies would never end and the liberties our Constitution’s separation of powers seeks to preserve would amount to little."

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https://www.supremecourt.gov/opinions/21pdf/21a244_hgci.pdf

23 de dezembro de 2021

Ah, o tempo...

 

Velhice, por que não? – Lya Luft

Para Vovó a beleza foi um tormento, porque o tempo não se detinha e desde moça seu maior pavor era perder aquele bem supremo. Olhava-se nos espelhos procurando uma primeira ruga, uma primeira dobra. Uma primeira manchinha. Quando chegou aos 60 anos quase morreu de dor, andava pela casa gritando: – Eu odeio fazer 60 anos! Eu não aguento fazer 60 anos!

Não adiantava as pessoas dizerem que parecia nem ter 40, tão conservada.

Argumentavam com ela: – Tente imaginar que você está conquistando a maturidade em vez de perder a juventude; e que um dia vai ganhar a velhice em vez de perder a maturidade. Não é muito mais natural pensar assim? Mas Vovó não aceitava, para ela o natural não era natural: – Eu odeio pensar que estou ficando velha. Não aceito, não aceito, pronto.

As primeiras cirurgias leves tinham-lhe feito bem: removeram um traço amargo, um sinal de cansaço prematuro. Depois seu médico lhe disse: – Vamos deixar a natureza agir um pouco e o corpo descansar. Não abuse.

Ela então foi procurar outros médicos, que faziam suas vontades.

Desafiando o indesafiável e excedendo seus limites, foi entrando no irreal. Mas as ilusões não continham mais o tempo, e o costurado voltava a descoser. Minha Avó foi-se isolando. Apartou-se das amizades, deixou as festas, não gostava mais de ninguém. Começou a delirar reclamando que todo mundo a apontava nas ruas, nas lojas, nos restaurantes: Lá vai aquela velha. Cada vez mais difícil de lidar e conviver, exigia o que ninguém podia lhe dar: o tempo congelado. Aos poucos foi sendo devorada por dentro também. O rosto de minha Avó, de tanto ser remendado, foi-se tornando outro. Mudou o olho, mudou o nariz, mudou o queixo, mudou até a orelha. No fim nada mais nela era dela. (O ponto cego, 1999)

Se quisermos congelar o tempo e nos encerrarmos nesse casulo, estaremos liquidados antes mesmo que a juventude acabe. Seremos a nossa ficção. A realidade continuará à nossa volta, e um dia vamos descobrir que estamos fora dela. Para alguns essa será a crise salvadora. Acabou a invenção de um “nós” fantasmal. Se ainda quisermos viver, não vegetar na prateleira da nossa fantasia, teremos de encontrar nessa aflição o que restou de nossa personalidade. Pois ela é quem vai nos dar consistência e capacidade de crescer até o último raio de lucidez. Assim se pode ter controle, não sobre o tempo, mas sobre o quanto ele vai nos favorecer ou aniquilar. Para entender que maturidade e velhice não são decadência mas transformação, temos de ser preparados para isso. Dispostos a encarar a existência como um todo, com diversos estágios, variadas formas de beleza e até de felicidade. Acreditar que com cuidado e sorte poderemos ser atuantes mesmo décadas depois: isso tem de ser conquistado palmo a palmo. Porém já na infância nos preveniam de que logo adiante algo de mau nos esperava: “Quando tiver a minha idade, você vai ver”, diziam mães, tias, avós. “Aproveite agora que é criança, quando crescer acaba a festa!”, aconselhavam com laivos de despeito. “Estou muito velha pra essas coisas”, protestavam na hora de se divertir ou alegrar. Existir no tempo nos foi mostrado como uma corrida infausta: cada dia uma perda, cada ano um atraso. Quem não teve seus momentos de querer nunca crescer para não enfrentar aquelas vagas ameaças? Sendo contraditórios – por isso interessantes -, não é estranho que na época em que mais vivemos se fuja tanto disso que se convencionou chamar velhice. E por imaginarmos que nossas últimas décadas são apenas decadência, reforçamos o tabu que reveste essa palavra. Palavras significam emoções e conceitos, portanto preconceitos. Por isso quero falar de minha implicância com a implicância que temos com os vocábulos – e a realidade – velho, velhice.

Detestamos ou tememos a velhice pela sua marca de incapacidade e isolamento. É algo a ser evitado como uma doença. Não deixa de ser tolo encarar o tempo como um conjunto de gavetas compartimentadas nas quais somos jovens, maduros ou velhos – porém só em uma delas, a da juventude, com direito a alegrias e realizações. Pois a possibilidade de ter saúde, projetos e ternura até os 90 anos é real, dentro das limitações de cada período. Quando não pudermos mais realizar negócios, viajar a países distantes ou dar caminhadas, poderemos ainda ler, ouvir música, olhar a natureza; exercer afetos, agregar pessoas, observar a humanidade que nos cerca, eventualmente lhe dar abrigo e colo. Para isso não é necessário ser jovem, belo (significando carnes firmes e pele de seda… ) ou ágil, mas ainda lúcido. Ter adquirido uma relativa sabedoria e um sensato otimismo – coisas que podem melhorar com o correr dos anos. Mas predomina a ideia de que a velhice é uma sentença da qual se deve fugir a qualquer custo – até mesmo nos mutilando ou escondendo.

No espírito de manada que nos caracteriza, adotamos essa hipótese sem muita discussão, ainda que seja em nosso desfavor. Isso se manifesta até na pressa com que acrescentamos, como desculpa: “Sim, você está, eu estou, velho aos 80 anos, mas… jovem de espírito.” Porque ser jovem de espírito seria melhor do que ter um espírito maduro ou velho? Ter mais sabedoria, mais serenidade, mais elegância diante de fatos que na juventude nos fariam arrancar os cabelos de aflição, não me parece totalmente indesejável.

Vou detestar se, ficando velha, alguém quiser me elogiar dizendo que tenho espírito jovem. Acho o espírito maduro bem mais interessante do que o jovem. Mais sereno, mais misterioso, mais sedutor. Assim como não gostei quando certa vez pensando me agradar um crítico escreveu que embora sendo mulher eu escrevia com mão de homem”.

A literatura feita por uma mulher não precisa se socorrer desse aval “mas ela escreve como um homem” para ser boa. Visitei uma artista plástica de quase 90 anos que pinta telas de uns vermelhos palpitantes. E eu lhe disse: “Seus quadros celebram a vida.” Ela respondeu junto do meu ouvido, brilho nos olhos: “Eu os crio para mim mesma, para me divertir.” Seu rosto enrugado e seu corpo já encurvado emanavam uma alegria de viver que me causou a mais confessável das invejas. Por um instante desejei ter chegado, enfim, ao mesmo patamar – onde muitas coisas pelas quais hoje luto e sofro fossem uma celebração tranquila. Uma mulher de 60 anos me pegou pelo braço, me levou para o canto, e sussurrava: “Por que decretaram que mulheres da nossa idade estão acabadas?”, e tinha lágrimas nos olhos. “Não sei”, eu disse, “mas nem você nem eu estamos acabadas, tenha certeza disso. Mudou meu corpo mas eu ainda sou a mesma.” Minha interlocutora era uma bela mulher com filhos independentes e boas amizades. O buraco em sua alma era o da autoestima, porque uma sociedade tola não lhe dava o direito de sentir-se plena, e impunha mesmo à sua mente ativa e capaz o conceito de que agora valia bem menos do que aos 40 anos. E a cada ano, a cada dia, valeria ainda menos. “Eu daria tudo, mas tudinho, por ter a cabeça de agora… no corpo dos meus 30 anos!”, ouvimos.

Trato bem ao meu corpo, esse grande gato”, escreveu uma poeta com essa sensatez dos artistas e das pessoas simples. “Afinal até aqui ele me serviu, e cada dia gosto mais dele, do jeito que está ficando.” Gostar de seu velho corpo com sua necessidade de cuidados e de amor, de mais treinamento para que funcione direito, de paciência porque nem sempre é como lembro que foi um dia, é uma forma de felicidade que a experiência pode ensinar.

Há poucas décadas alteraram-se nossos prazos, e os conceitos sobre juventude, maturidade e velhice. Passamos a viver mais. Nem sempre passamos a viver melhor. Esse me parece um dos mais extraordinários desperdícios da nossa época. Minhas avós, muito mais jovens do que sou agora, me pareciam – e deviam se sentir – velhas: lentas e vagamente reumáticas, roupa escura, cabelo grisalho, óculos na ponta do nariz, fazendo doces ou tricô. Verdade que minhas avós eram vistas seguidamente com livro na mão – lia-se muito na minha casa. Mesmo assim, para nós crianças eram velhas damas.

Inimaginável que tivessem sido meninas e jovens mulheres. “Vovó transou alguma vez, pelo menos para ter o papai e a titia”, era uma ideia escatológica. Pai e mãe tendo vida amorosa na remota era em que se casaram já nos parecia estranho. Hoje as avós dirigem seu carro, viajam, jantam fora com amigas, namoram, usam computador, e de modo geral parecem muito mais felizes do que as damas de antigamente. Mas, ambíguos como somos, por outro lado mais que nunca viceja o repúdio à velhice. Lembro uma propaganda de televisão mostrando uma mulher idosa de xale nos ombros, rosto murcho e desolado, vagando por um corredor. Abria portas e contemplava os quartos vazios onde sua fantasia fazia ecoar a voz dos filhos, do marido. Era a imagem da pobre velha abandonada que perdeu tudo – porque perdeu a juventude. Não vejo por que em lugar desse sinistro teatro da velhice não se poderia transformar um quarto de filho em salinha de televisão, em ateliê para pintar ou fazer cerâmica, em quarto de hóspedes para convidar alguma amiga a passar o fim de semana… em quarto para os netos. Por que, se um aposento não tem mais utilidade direta, não terei mais direito a ele?

Mesmo que minha casa não esteja movimentada como anos atrás, por que devo me transferir para algum espaço menor – a não ser que eu realmente queira, e decida assim por ser mais prático, mais razoável? Jamais por achar que não preciso, ou pior: não mereço, nem adiantaria mais. Somos seres humanos completos em qualquer fase, na completude daquela fase.

Custa-nos acreditar nisso na velhice, como na adolescência era difícil termos confiança em nós e nossas escolhas quanto ao futuro.

Com direito e dever de procurar interesses e revisar outros, ter alegrias e prazeres, sejam eles quais forem. Posso na velhice não ser um atleta na cama nem mesmo ter atração pela vida sexual, mas sou capaz de exercitar minha alegria com amigos, minha ternura com família, meu prazer em caminhadas, em jardinagem, em leitura, em contemplação da arte. Porém, numa sociedade em que sucesso e felicidade se reduzem a dinheiro, aparência e sexo, se somos maduros ou velhos estamos descartados. Cada dia será o dia do desencanto. Em lugar de viver estaremos sendo consumidos. Em vez de conquistar estaremos sendo, literalmente, devorados pelos nossos fantasmas – na medida em que permitirmos isso. Essa é a nossa possibilidade, a nossa grandeza ou a nossa derrota: viver com naturalidade – ou experimentar como um súbito castigo dos deuses – os novos 70 ou 80 anos. Algumas pessoas parecem tombar subitamente da juventude impensada para a velhice ressentida.

Foram apanhados desprevenidos. Nunca tinham pensado. Estavam desatentos.

Triste maneira de percorrer isso que é afinal o milagre da existência.

Imaginamos enganar a máquina do tempo, e suas engrenagens nos atropelaram em lugar de nos impulsionar. Para quem só pensa nos desencantos da maturidade, eu falo no encanto da maturidade. Para quem só sabe da resignação da velhice, eu lembro a possível sabedoria da velhice. É preciso seguir em frente com o meu tempo. Mas qual é, onde está, em que lugar ficou… o meu tempo? Nossos ouvidos estão cheios de refrões, como: “meu tempo já passou”, “eu não devo”, “onde já se viu”…

Perder nos deixa vulneráveis, com medo de que isso se repita. De que o amado nos esqueça, de que o outro morra, de que a graça se apague, a festa acabe. Não queremos essa repetição, não queremos mais perder nada – preferimos nem ganhar coisa alguma. Mas se escutarmos bem nosso interior, ali está a voz persistente dos momentos alegres e das belas experiências dizendo-nos que viver ainda é possível. Faz uns pequenos sinais discretos, que até demoramos a entender. Uma de minhas mais queridas amigas tem quase 90 anos, e espero pelo fim de semana para tomar com ela, em sua casa aconchegante, o uísque dos fins de tarde de domingo. Sempre temos assunto. Ela sabe de tudo, é informada, é interessada. Não fala preferencialmente de sua saúde, que já não é a de dez anos atrás. Comenta coisas de jornal, política, música. Pergunta pelos amigos. Já não vai ao cinema, mas, como é grande leitora, há mil assuntos para se falar. Ela gosta de rir e nos divertimos muito.

Pensando nela e em outras pessoas assim, questiono se ter 80 anos ou mais será realmente uma condenação ou se pode ser o coroamento de uma vida. Verdade que para haver um “coroamento” é preciso uma estrutura razoável para ser “coroada”. Generosa, de conquistas, de perdas mas igualmente de elaboração e acúmulo. Vivida com gosto e dor, com afetos bons e outros menos bons. O prato luminoso do positivo mais pesado do que o das coisas escuras.

E da juventude, o que você diz?”, me indagam. Não preciso falar tanto dela porque é cantada e louvada em todos os meios de comunicação, em todos os salões, em todos os quartos. E la é deslumbramento e aflição, crescimento e inépcia, angústia e êxtase como todos os nossos estágios – apenas tudo ali está condensado em intensidade e brilho. Mas não acho que só ela vale a pena, só ela nos avaliza. Como não defendo a ideia de que a maturidade e a velhice sejam melhores. São diferentes. Com seus lados bons e ruins. Idade não dá aval de bondade e graça. O velho sempre bonzinho é um mito, a velhinha doce pode ser comum nos livros de história, mas na realidade é muito diferente.

Eventualmente o velho pode ser um algoz, exercendo sobre a família a famosa tirania do mais fraco, do doente, da criança mimada. Algumas pessoas, envelhecendo, se tornam insuportavelmente exigentes, lamuriosas, difíceis de conviver. Apegadas a um passado com bens, presenças, aparência e atividades que não podem mais ter, não se conformam. Nem sempre o velho fica isolado porque os filhos são ingratos. Muitas vezes ele é que afasta os demais, com sua permanente crítica a tudo e a todos, suas exigências de atenções nem sempre possíveis. Na reduzida família nuclear de agora, em que em geral marido e mulher trabalham, os filhos são poucos, uma empregada custa caro – a assistência ao velho torna-se difícil se ele for dependente.

Boas clínicas são raras e dispendiosas. Grave problema para todos. Cada família o resolverá como puder, em geral com sacrifício financeiro e ônus emocional. “O problema dos velhos é que lhes falta o que fazer, faltam interesses”, a gente diz, como se fosse uma inevitabilidade. Não é inevitável. Por que o velho não pode ter a sua vontade enquanto for independente, enquanto tiver lucidez – maior de todos os bens desde que não signifique apenas lucidez da dor física?

Na idade avançada os interesses não precisam ou não podem ser os de antes: atividade, trabalho, dinheiro, viagens, conquistas. A certa altura mudam as possibilidades mas não se anula a pessoa. O bem-estar e a alegria residem nas coisas mais triviais: esse é um dos aprendizados que o tempo nos dá. Por isso mesmo, a essa altura é mais simples ser feliz. Novos afetos são possíveis em qualquer idade: sempre se podem estabelecer novos laços com pessoas, coisas, lugares, interesses. Nem mesmo amor, ternura e sensualidade são privilégio dos moços. Mas muitas vezes não lhes permitem, aos velhos, a mínima independência, ainda que ela seja totalmente viável: “Que ideia, mãe, sair à rua sozinha!”

Papai, você está doido, morar sozinho? Viajar sozinho, ir sozinho ao restaurante? Na sua idade… ” Essa é a sentença condenatória: na sua idade, na minha idade. Não perdemos (alegria, saúde, amores): nós os roubamos de nós mesmos. E nos boicotamos adotando frases comuns, como essas: “Estou velha, minhas mãos ficaram feias, não vou usar mais meus anéis.” “Para que comprar um terno novo, se estou velho? Quantas vezes ainda o vou usar?” “Para que comprar vestido novo, para que pintar a casa, para que reformar o sofá, se estou velho?” Então está decretado que os velhos usam calças largas demais, sapatos cambaios, cabelo descuidado, e sentam no sofá puído. Seria bom perguntar em que medida eles mesmos dão força aos rótulos sobre sua idade, adequando-se a esse clichê, ainda que lhes custe muito. Ainda que tivessem outra opção. O tempo tem de ser sempre o meu tempo, para realizar qualquer coisa positiva e plausível – ainda que seja mudar de lugar a cadeira (até a de rodas) e ver melhor a chuva que cai. Uma velha senhora mora sozinha mas curte as amizades, a família, livros e músicas, a natureza. De vez em quando abre uma garrafa de champanha e faz um brinde, sozinha (não chorosa): a coisas boas que teve, coisas boas que tem, e uma ou outra que ainda pretende viver. Um dia lhe manifestei minha admiração por isso. Com um sorriso entre tímido e divertido ela respondeu que sempre havia o que celebrar. Era um privilégio estar viva tendo consciência disso, e sem graves problemas de saúde. Poder apreciar a luz da manhã, o aroma da comida, o perfume das pessoas. Comunicar-se, saber das notícias, que podiam ir do esporte à música, à política, ao… o que eu quiser. Participar ainda. Me enterneceu essa visão positiva de uma mulher ficando velha. Sua idade não era o ponto de estagnação, mas de fazer tranquilamente coisas que antes não podia. Não tinha mais de cumprir tantos deveres nem realizar tantas expectativas.

Acho que as pessoas são mais condescendentes comigo”, ela disse com um sorrisinho malicioso. “Devem pensar “ela está velhinha, coitada” e assim eu posso finalmente respirar fundo, e ser mais… natural.” Certa vez li uma história mais ou menos assim: Uma jovem corria para ficar em forma. Passou por uma velhinha que cuidava de seu jardim na frente da casa, e gritou ao passar:

Vovó, se eu fosse magra como você, não precisaria ficar aqui correndo desse jeito! A velhinha a fez parar com um sinal, aproximou-se dela, e lhe disse sorrindo: – Filha, quando a gente fica velha como eu, tudo é mais fácil. A gente pode até se aposentar e gostar de cuidar das rosas.

Mas se sonharmos apenas com a viagem à Lua, cuidar das rosas pode parecer tedioso demais, e não cultivaremos coisa alguma. A vida é sempre a nossa vida, aos 12 anos, aos 30 anos, aos 70. Dela podemos fazer alguma coisa mesmo quando nos dizem que não. Dentro dos limites, do possível, do sensato (até alguma vez do insensato), podemos. Só seremos nada se acharmos que merecemos menos de tudo que ainda é possível obter.

Lya Luft, no livro “Perdas e ganhos”. Rio de Janeiro: Record, 2006


Encontrei o texto nas redes sociais e julguei interessante para qualquer ser vivente... (Dez 2021). Poucos dias depois desta publicação, aqui no Blog, Lya Luft faleceu.